Praticamente qualquer pessoa tem uma noção matemática dos números e suas aplicações elementares, como somar os valores de produtos comprados e pagar o montante devido. Mas se essa mesma pessoa for perguntada sobre a definição do que seja número, dificilmente responderá, a menos que tenha uma formação razoavelmente sólida em matemática, já que deverá conhecer a teoria dos conjuntos e lógica. Isso sem mencionar o fato de que somente no final do século XIX, com Gottlob Frege (Os Fundamentos da Aritmética, tradução para o português de Luís Henrique dos Santos), se chegou a uma definição formal de número.
O domínio do que seja a moral e a ética encontra analogia com o do conhecimento sobre números. Nos valemos cotidianamente de conceitos derivados da filosofia moral e de princípios éticos, mas não sabemos defini-los com clareza e precisão. Argumentar que o termo ética deriva do grego e que foi inicialmente abordado de forma sistemática por Aristóteles, enquanto moral tem sua raiz no latim “mores” e significa costume, não esclarece muita coisa.
Existem diversas concepções de filosofias morais, como o utilitarismo e o intuicionismo, e práticas éticas estão intimamente associadas com cada uma dessa filosofias na medida em que elas lhes fornecem as justificativas apropriadas. Embora a filosofia moral tenha por objeto primeiro a busca da distinção entre o que seja o certo e o errado, tal somente é possível no contexto de um ideal de homem e de sociedade. Como existem ideais diferentes, também existem concepções morais diversas.
As grandes concepções morais do presente foram germinadas a partir do movimento Iluminista Europeu, com o deslocamento da responsabilidade das justificativas dos atos humanos de Deus para o homem. O germe para tais concepções localiza-se, indubitavelmente, mais longinquamente no tempo, em Thomas Hobbes e seu Leviatã (1651), que rompeu definitivamente com as concepções aristotélicas de natureza humana. Entre elas estão o utilitarismo (Jeremy Bentham e John Stuart Mills), a Deontologia (Kant), a Teoria do Comando Divino, o Individualismo possessivo, fundamento da racionalidade econômica e a Justiça como equidade (John Rawls – A Theory of Justice (1971)).
Qualquer concepção moral, de acordo com Ashley Mackenzie, se divide em três ramos: ética aplicada, ética normativa e ética analítica.
A ética aplicada questiona o sujeito em cada situação sobre o que é certo ou errado fazer.
A ética normativa considera três razões das escolhas: a ação, a pessoa que a executa e as consequências advindas. Se o foco é na ação (deontologia), algumas são valoradas como essencialmente positivas e outras como negativas, independente de quem as pratica, como, por exemplo, práticas cruéis (eminentemente negativas). Se o foco é na pessoa, entramos na seara das virtudes pessoais, como a solidariedade social. Se o foco é nas consequências, então apenas os resultados das ações são valoradas. O exemplo clássico encontra-se no pensamento do sociólogo alemão Max Weber, que, em termos políticos, definiu os termos ética da responsabilidade e ética da convicção. A ética da responsabilidade é eminentemente consequencialista, enquanto a ética da convicção abarca as virtudes. Outro exemplo de ética normativa encontra-se nos códigos de condutas das profissões.
A ética analítica debate os conteúdos e justificativas dos discursos morais.
A filosofia moral não pode ser confundidos com os costumes transmitidos pela tradição, embora estes possam ser classificados como sentimentos morais. Costumes são práticas sociais estabelecidas pela repetição constante de comportamentos, muitos de forma acrítica. A filosofia moral exige posicionamento crítico, justificativa de proposições e ordenamento lógico sistemático de suas partes.
Um excelente livro que aborda a moralidade pública no Brasil é o de autoria de Edson de Oliveira Nunes - A gramática política do Brasil. A edição original publicada pela Zahar (1997) está esgotada, mas uma nova edição foi lançada em 2010 pela Garamond.
Nunes identifica quatro padrões que norteiam o relacionamento entre sociedade civil e esfera pública: o clientelismo, o corporativismo, o insulamento burocrático e o universalismo de procedimentos. Embora o período analisado compreenda os anos 1930-60, parece que as práticas institucionais em nada se alteraram.

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