Desde o momento do nascimento começamos a sofrer transformações induzidas pelo mundo externo. Por intermédio dos órgãos sensoriais sentimos quando está frio ou quente e aprendemos a procurar uma situação de equilíbrio. Aprendemos a andar e a falar, e desenvolvemos gradativamente, em maior ou menor grau, a capacidade de raciocínio abstrato como modo de representação do mundo.
Fato que merece destaque nesse processo de formação de uma consciência individual é que os estímulos que desencadeiam os aprendizados originam-se na necessidade de suprir uma falta de habilidade específica e na busca de equilíbrio. Aprendemos a andar porque ainda não possuímos tal capacidade, o mesmo ocorrendo com o falar. No frio, procuramos proteção de um agasalho porque nosso corpo não consegue produzir o calor adequado para nos manter suficientemente aquecidos.
O aprendizado é de fundamental importância no processo porque representa, em face da solução, uma adaptação e transformação da capacidade intelectiva. Uma vez que o sujeito aprenda a falar, não retornará mais ao estado pré-fala.
Talvez pareçam óbvias demais essa afirmações, mas existem situações análogas em que não são, em absoluto, percebidas. Antes, porém, torna-se necessário um outro esclarecimento: sobre a natureza do equilíbrio antes mencionado. Equilíbrio em relação ao quê? Equilíbrio em relação às habilidades de outros sujeitos com quem a pessoa convive. No momento que esta atinge patamar semelhante de desenvolvimento, a tendência é a manutenção do equilíbrio e a necessidade de aumento da habilidade perde importância.
Agora a razão porque a transformação decorrente do aprendizado não é tão óbvia quanto parece.
Em um país com a expressão das desigualdades sociais como o Brasil, a lógica do aprendizado em busca do equilíbrio deveria apontar para a contínua transformação intelectiva dos que se encontram em estágios menos desenvolvidos no caminho dos estágios mais desenvolvidos de bem estar social. Mas o cotidiano mostra que tal não acontece. Porquê? Por que o atraso, a ignorância e o subdesenvolvimento exercem diversas funções sociais, fenômeno que não muda muito no transcorrer do tempo.
Em 08/10/2003, com base em publicação do Banco Mundial, o jornal Folha de São Paulo (“ NE prefere trabalhador sem estudo”) denunciava que Estados e empresas do nordeste preferiam e estimulavam a contratação de empregados menos educados como constituição de uma força de trabalho “menos dócil, menos móvel e com menos aspirações”. Em outro artigo, “Os negócios da elite e o medo da educação”, e com autoria atribuída ao Banco Mundial (publicado na mesma data pelo mesmo jornal), consta que a “elite modernizante” no Nordeste preferia contratar pessoas com apenas o ensino primário. Os governantes nordestinos, diz o estudo, “apoiam a estratégia das empresas” ofertando subsídios para treinamento e estimulando a retórica de que seus Estados têm mão de obra competitiva em relação a outras economias emergentes. “Antigos fatores que levam à iniquidade social são impressionantemente adaptáveis” aos governos “democráticos”. “A educação primária oferece o básico para que esses trabalhadores, com um pouco de treinamento, se tornem competitivos em relação a regiões nas quais os salários para as mesmas funções são significativamente mais altos”.
Qual a saída para essa manipulação social? Talvez a mais premente seja a luta contra a cidadania tutelada, expressão que, em si mesma, representa um paradoxo. Se cidadania é, em primeiro lugar, assumir autonomia de pensamento e ação, a partir do momento em que é tutelada deixa de ser cidadania e passa a ser dominação, com a transmutação do cidadão em súdito.
Em alguns casos, a melhor forma de enfrentamento é pela participação ativa via ação individual focada na mudança social. Começar a mudança por si mesmo, forjando uma personalidade que entenda e valorize a vida em sociedade (o exemplo próprio é a melhor das forma de expressão de opinião). As oportunidades, em sociedades apoiadas na tecnologia da informação como está se transformando o Brasil, existem e estão disponíveis para todos.

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